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Governo brasileiro se arma contra o "agroterrorismo"

  • 18/10/2005 09:00

A chamada "bioglobalização" tornou o Brasil altamente vulnerável ao ingresso de novas pragas e doenças no curtíssimo prazo. O movimento global de mercado somado à disseminação de organismos vivos podem trazer ao país novos fungos, bactérias, vírus e ácaros tão devastadores à produção e à economia nacional quanto os focos de febre aftosa de Mato Grosso do Sul.



Um grupo estratégico coordenado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) desenhou um cenário sombrio para os próximos anos. Há cada vez mais riscos de bioterrorismo e agroterrorismo, concentrados, sobretudo, na temida gripe aviária, que já avançou da Ásia para a Europa. O grupo oficial critica a adequação dos controles e a estratégia adotada pelo país para impedir a entrada desses minúsculos inimigos incrustados em pessoas e produtos.



Especialista em genética e melhoramento de plantas, o agrônomo Afonso Candeira Valois trabalha no grupo com o conceito bastante concreto de segurança biológica. O Brasil está, segundo ele, exposto a pelo menos quatro grandes ameaças na área vegetal - monília do cacaueiro, o besouro asiático, ácaro do arroz e cochonilha rosada - e a outras três doenças na área animal: "vaca louca", "cabra louca" e a própria gripe aviária.



A "bioglobalização" ameaça a produção nacional com a introdução intencional de pragas e doenças. "O Brasil é uma ameaça comercial a outros países. Há uma competição feroz e não podemos ser ingênuos nesse jogo", disse Valois ao Valor. "O cerco vai se fechar ainda mais sobre nós". Segundo ele, o país vive a "iminência de novas tragédias econômicas com repercussões sociais" como os focos de aftosa. "Deus nos livre da gripe aviária".



Ex-chefe-geral da unidade de Recursos Genéticos da Embrapa (1995-1999), Valois lista casos de bioterrorismo e agroterrorismo praticados contra o Brasil e investigados pelo governo. Segundo ele, ainda nos anos 70, entrou no país o vetor do bicudo, praga que dizimou as lavouras de algodão no Paraná e no Nordeste do país. "O bicudo entrou, de forma intencional, pelo aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), direto dos Estados Unidos", afirmou. "Não foi um caso para um país produzir mais e tomar nosso mercado, mas para vender mais defensivos". A introdução da ferrugem asiática da soja, em 2003, também foi intencional, segundo Valois. "Havia registros de esporos do fungo no Paraguai, a 200 quilômetros da nossa fronteira. Depois, sem explicação, apareceu no meio de Mato Grosso". Na época, o governo protestou contra a presença de um funcionário do Departamento de Agricultura dos EUA na região por sua suposta participação na introdução do fungo. "Perdemos US$ 2 bilhões em vendas e gastamos R$ 500 milhões com agrotóxicos", afirmou.



Valois classifica como agroterrorismo a interferência de um terceiro país para dificultar uma transação entre dois parceiros comerciais. Valois citou como exemplo o embargo chinês à soja brasileira por causa de sementes contaminadas por agrotóxicos. "Os EUA influíram diretamente nessa decisão para ganhar mercados", disse.



Há três anos responsável por pesquisas com segurança biológica, Afonso Valois alerta para as principais ameaças ao país. Segundo ele, a monília do cacaueiro pode dizimar as lavouras do Sul da Bahia. "Ela é mais violenta que a vassoura-de-bruxa porque fica oito meses nos hospedeiros". A praga já foi identificada no Peru e pode entrar no país pelo Acre. O besouro asiático, incrustado em embalagens de madeira, poderia acabar com plantações de pinus e eucaliptos. A cochonilha rosada ataca mais de 100 espécies de frutas e o ácaro do arroz pode exterminar as tradicionais plantações do sul do país. Na área animal, o registro de "vaca louca", que atinge o sistema nervoso dos animais e tem uma variante humana (o mal de Creutzfeldt-Jacob), fecharia todos os mercados para a carne bovina nacional e teria um impacto brutal nas vendas internas. "O Brasil cresceu no mercado externo a partir da "vaca louca" na Europa e nos EUA". A gripe aviária, que ameaça virar uma pandemia, seria um desastre à produção nacional. "E pode virar uma doença humana", disse.



O pesquisador alerta para a falta de dinheiro, recursos humanos e materiais para manter e expandir as atuais estruturas de fiscalização e vigilância nos principais pontos de entrada no país. "Temos programas, conhecimento, experiência, mas não o dinheiro". Falta também a convergência institucional e uma real interação do governo com o setor privado. "Os ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente, por exemplo, trabalham separados", disse. Segundo ele, falta ao governo a "visão do todo".



Amanhã, ele apresentará, durante reunião na Abin, proposta de criação do sistema nacional de segurança biológica e de um plano estratégico de vigilância de portos, aeroportos e fronteiras. Embrapa e Abin trabalham em conjunto com o Grupo de Trabalho da Amazônia (Gtam), que reúne Ministério da Defesa, Polícia Federal e os comandos do Exército, Marinha e Aeronáutica. "Não há risco zero, mas riscos analisados, gerenciados e comunicados". Da Amazônia vem boa parte das principais ameaças ao país. "As fronteiras estão descobertas e as pragas e doenças estão entrando". Valois foi chefe-geral da unidade Amazônia Ocidental da Embrapa, em Manaus.




Fonte: Valor Econômico



 

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